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sexta-feira, 16 de junho de 2017

A TAÇA TRANSBORDANTE
Malba Tahan


Contam que um califa de Bagdá tinha um filho, já moço, muito acanhado e tímido. Não saía à rua para que o não vissem e dessem tento do seu modo de andar e o apontassem como sucessor do rei.
O pai, a quem muito mortificava a timidez do filho, um dia chamou-o e disse-lhe:
_ Toma esta taça de cristal. Hás de levá-la com água a transbordar, desde este palácio até a mesquita, sem contudo, entornares uma gota sequer. É essa a minha ordem. Muito triste ficarei se me desobedeceres.
Pelas longas e tortuosas ruas sai o moço a caminhar com imensa cautela, completamente alheio ao rebuliço da massa popular, e indiferente aos olhares dos curiosos espectadores. Era preciso obedecer a seu pai. E ele fez exatamente como lhe fora ordenado. Tornando a casa, perguntou-lhe  rei se havia notado a curiosidade dos transeuntes.
_Como seria possível fazê-lo, respondeu, tendo na mão a taça a transbordar?
Assim também, se tu, meu bom amigo, andasse pela vida preocupado com uma taça a transbordar, afastarias de ti o respeito humano, e caminharias pela estrada do dever com tranquila confiança. Ora, essa taça mais frágil que o vidro, mas que deve absorver os teus sentidos, é a tua alma de cristão. E se possuis esta preciosa e delicada taça e desejas transportá-la, porque emprestas tanta importância aos olhares e críticas dos transeuntes, que querem perturbar a tua jornada gloriosa pela vida?

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