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sexta-feira, 16 de junho de 2017

AMOR É GOSTAR DE AMAR


Iraci Matos

Amor é o gosto de doce
é banho de chuva, é mergulho no mar.
É água bem fria pra sede matar.
Sair de manhã sem vontade de voltar.
É andar ao vento,
pisar no paralelepípedo pra se equilibrar.
É conversa boa.
É dar risada de quase nada
e não sentir o tempo passar.
Amor é gente que gosta da gente.
Amor é cantar, cantar e cantar.
É poesia, é romance, é dançar,
É sonho bom que não quer acabar.
Amor é o abraço quente e macio,
são as mãos que afagam, que tocam
que brincam de brincar...
Amor é o gesto do olhar
que toca o coração sem de fato tocar.
Que transcende o pensamento,
que voa nas asas do vento,
que vai...Vai... Até os sonhos alcançar.
Amor é gostar de amar!


Temporalidade
Iraci Matos

O tempo caminha sem trégua.
Marca o dia, marca a hora,
Traça o inicio e o fim
Nunca vai embora

O tempo traz sonhos com ele,
Joga esperança na gente.
Instiga a busca incessante
O tempo não dá sossego

Brinca com nosso viver,
Se rir de nosso desejo.
Cria expectativas
E sai de mansinho, rasteiro...

Em um instante qualquer
Apenas, diz: Basta, acabou!
Tudo que te propus
O tempo esgotou!


A TAÇA TRANSBORDANTE
Malba Tahan


Contam que um califa de Bagdá tinha um filho, já moço, muito acanhado e tímido. Não saía à rua para que o não vissem e dessem tento do seu modo de andar e o apontassem como sucessor do rei.
O pai, a quem muito mortificava a timidez do filho, um dia chamou-o e disse-lhe:
_ Toma esta taça de cristal. Hás de levá-la com água a transbordar, desde este palácio até a mesquita, sem contudo, entornares uma gota sequer. É essa a minha ordem. Muito triste ficarei se me desobedeceres.
Pelas longas e tortuosas ruas sai o moço a caminhar com imensa cautela, completamente alheio ao rebuliço da massa popular, e indiferente aos olhares dos curiosos espectadores. Era preciso obedecer a seu pai. E ele fez exatamente como lhe fora ordenado. Tornando a casa, perguntou-lhe  rei se havia notado a curiosidade dos transeuntes.
_Como seria possível fazê-lo, respondeu, tendo na mão a taça a transbordar?
Assim também, se tu, meu bom amigo, andasse pela vida preocupado com uma taça a transbordar, afastarias de ti o respeito humano, e caminharias pela estrada do dever com tranquila confiança. Ora, essa taça mais frágil que o vidro, mas que deve absorver os teus sentidos, é a tua alma de cristão. E se possuis esta preciosa e delicada taça e desejas transportá-la, porque emprestas tanta importância aos olhares e críticas dos transeuntes, que querem perturbar a tua jornada gloriosa pela vida?

A ALAVANCA DE OURO
Dom Aquino Correia

Dizem que outrora, numa lavra funda,
Viu-se aqui, toda de ouro, uma alavanca:
todos a querem, mas ninguém a arranca,
e mais se cava, tanto mais se afunda.

Contudo, cavam sempre... E a ganga imunda,
que nessa escavação se desbanca,
vai dando ouro, muito ouro, e não se estanca,
té que o arraial feliz de ouro se inunda.

Quanta sabedoria não encerra
esta lenda gentil da minha terra,
que o trabalho e à constância nos convida!

Trabalha! que o trabalho é o teu tesouro,
e será ele essa "alavanca de ouro",
que há de elevar-te e enriquecer-te a vida!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

SEMENTEIRA DE AMOR
Constâncio C. Vigil

Ergue-te, semeador!
É hora de começar a tarefa
A campânula do céu vibra cada vez mais próxima e já ressoa na voz dos galos
Adiante de ti está o Infinito.
Sobre tua cabeça e debaixo dos teus pés é, ainda o Infinito que está.
Retém a luz em teu espírito.
Acede o fogo em teu coração.
Teus bois são o amor e a justiça, e tua campina a verdade. 
Rasga a terra dura, de norte a sul e de oriente a ocidente
Como ele disse, semeia a palavra do bem e do amor.
Chegará o dia em que a semente abrir-se-á, tal uma benção sobre a terra.
Aqui nada busques e nada esperes. O ar do céu te alimentará...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

 O PODER DA ORAÇÃO
Júlio Ribeiro

Só desconhece o poder da oração quem desconhece grandes amarguras.

A oração é a alavanca do espírito.

Quando o fardo de viver pesa como chumbo sobre a alma quase asfixiada,
quando o círculo de ferro dos dissabores se estreita, envolvendo-a, tocando-a,
parecendo prestes a aniquilá-la, o homem prostra-se e volve um olhar para Deus...
As frases que mal traduzem o pensamento atribulado rompem-lhe dos lábios múrmuras e inconexas...
E um bálsamo suavíssimo de esperanças percorre-lhe as veias ressequidas;
na escuridão que o rodeia esboça-se um  albor tênue, difunde-se, tinge de rosicler
o horizonte alargado; sopram auras de vida; é um alvorecer.

E o homem levanta-se revigorado, atira-se  à luta, derriba obstáculos, vence, triunfa.

Contos da Infâcia
O MENINO RICO E O  MENINO POBRE (Coelho Neto)


Setados na mesma pedra, à beira d'água, disse o menino ao pequenino:
_ Que lindos cabelos tens! Parecem de ouro.
_ Se os meus cabelos fossem de ouro, minha mãe que é tão boa, não trabalharia tanto.
_ Tens mãe! Exclamou o menino maravilhado.
O menino corou como a uma afronta.
- Se tenho mãe... Como não? Ela é que me peteia os cabelos; ela é que me  conta histórias;
ela é quem me cura quando adoeço; ela é que me concerta a roupa e me adormece ao colo cantando, quando, nas noites escuras, tremo de medo ouvindo piar a coruja. Tenho mãe, como não? Também não sou tão pobre  assim.
_ Pois eu não tenho! Suspirou o menino. Minha mãe morreu quando eu nasci. estas terras, com tudo que nelas há, são do meu pai, que só tem a mim. No palácio em que moro já se hospedou um príncipe
com toda a sua corte. O salão em que durmo é todo forrado de seda com lustres, de ouro e tapetes onde os pés  se afogam.
São tantos os meus criados que a muitos, tenho por estranhos e pasmo quando me pedem ordens.
_ E quem lhe conta histórias?
_ Histórias? leio-as nos livros.
_ Quem o veste e penteia? 
_ A velha aia.
_ Quem o acalenta à noite, quando a coruja chirria e o vento geme às árvores?
_ Rezo à Nossa Senhora.
_ Quando adoece quem o cura?
_ Os médicos.
_ E quando a tristeza entra em seu coração, quem o consola?
_ Choro.
_ Levantou-se então, o menino pobre e tomando nas mãos do menino milionário, encarou-o compadecido, com os olhos arrasados d'água.
_ Porque choras? Que tens? perguntou o milionário comovido.
_ Choro de pena, porque nunca pensei que houvesse no mundo outro mais pobre do que eu.

OBS: Encontrei este conto no livro Aprenda Conversando -Os Mais Belos Contos de Maria Isabel Santos e Vera Margarida Santos. Editora do Brasil na Bahia S.A